terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ACRÓSTICO

Espera enlouquecido
Nuances de um corpo nu
Temperado com desejo
Ritmado por fantasias
Entretanto,
Quer
Um
Amor
Tarado por loucuras
Rico em afinidades
Ostentado
Pela paixão
Acalmado pelo beijo
Reestruturado pelo toque
Enfeite das palavras
Defensor de todos os argumentos
Enrubescido por
Sintomas, suor ou melhor pelo sexo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

VOA PASSARINHO...



O bicho parecia adormecido...
Era tanta água que o fez delirar,
Mas acontece que por ser bicho
Ficou na espreita da caça
do infeliz que iria devorar

Diante do caos ele achou a solução
“Vou à procura de um passarinho,
 mas terei outros dois nas mãos
e eles terão de trafegar ao meu favor
por R$ 3,00 ou a cada canto que preciso for...”

Mas o passarinho tem mente esperta
 e asas para voar...
Ao gerar lucro a semana inteira para seu predador,
esta tarifa não pode pagar...

E dentro da gaiolinha
que os levava para o destino traçado
houve uma reunião...
Somos aves com diferentes asas,
mas precisamos fazer uma revolução.

Se “pular” o bicho pega
se “pagar” o bicho come...
Já voamos por muitas selvas,
 mas este reino é fatureiro...
É a tarifa mais cara do país inteiro!

Então é o seguinte: abriremos o bico e seremos selvagens
Com a sutileza do canto do pássaro (que a gente sabe...)
O que pagamos, o que fazemos...
O que aturamos por este bicho o ano inteiro
Precisamos amenizar...

Pois, outros bichos por aí estão com a idéia
de usar a mesma estratégia com suas presas
Para mais lucro gerar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

QUANDO OS MINUTOS VIRAM UMA ETERNIDADE

De calçada em calçada, olhando para o chão a procura de alguns trocados penso nos dias tristes de zonzeiras e sonhos. Na mão cinco moedas de centavos, e pela frente uma caminhada de vinte e cinco minutos que mais pareciam três horas. O destino era péssimo pela fraqueza que sentia e importante pela necessidade que me apontava, o movimento da avenida que seguia estava cheia de pessoas bem sucedidas, que belo dia.
Quando entrei e pousei minhas mãos na prateleira, me vi com uma arma na mão desfilando perfeitamente com o meu carrinho lotado de mercadorias deliciosas (desculpe, foram momentos de desequilíbrio mental como se estivesse sonhando acordada) e ao olhar novamente para o mesmo ponto na qual fitavam os meus olhos fundos e cheios de raiva súbita percebi que não havia tempo para tais alucinações. Tive a sensação de estar flutuando, este foi o meu pior pesadelo, enquanto seguia o corredor sentido a padaria. 
Ao chegar no local desejado disse:
- O que setenta centavos me permitem sorrindo?
A atendente com um cansaço eminente logo pela manhã sorriu com muito esforço e com a mão na barriga acariciando o seu ente querido me respondeu:
- Um brinde fora da balança, pode ser? (isto quer dizer, um pão de graça).
Envergonhada respondi que sim através do movimento tímido com a cabeça, a cumplicidade ao deparar-se com tormentos semelhantes me confortou, não estou só, entretanto, isto não é normal. Direcionando-me ao caixa, quase surto, uma fila enorme de famintos. Tais estes que classifiquei da seguinte forma:famintos por gastos, famintos por bem-estar, famintos por rotina, famintos por fome.
Passaram-se quinze minutos e finalmente fui atendida, mas como esperava ansiosa o meu lugar ao sol (já que muitos me esperavam em casa) acabei derrubando três moedas no chão. A decepção dos apressados que aguardavam na fila superou a minha indignação de toda manhã. Era possível prever a senhora agarrando minhas orelhas para que efetuasse a tão sonhada compra, “retire-se daqui menina atrapalhada, pois preciso ir ao salão tenho cabelo marcado às 10:00hrs”...de toda irritação prévia da adolescência naquele momento queria mandar um foda-se para todos. Sai do mercado. Mais uma etapa desesperadora, avisto aquele morro do inferno acompanhado de um sol ardente pedindo banho de mangueira por 10 minutos, maldita “Henrique Eroles”, pensei alto. No percurso do último quarteirão, beirando a avenida, não pude deixar de reconhecê-la a minha espera, a cada passo a longínqua calçada se tornava mais distante,imaginei uma esteira rolante na qual me aconchegava sentada observando a pracinha pitoresca do lado direito e a barulheira cheia de carros do lado esquerdo, outro sonho e risos estreitos. 
- Mãe! (Gritei). Quase não aguentei esta subida, vamos tomar um café!?

domingo, 16 de janeiro de 2011

BRISA

 BRISA

De todos os encontros
o mais infame
A saia rasgada me lembra 
o impacto da parede
A mão trêmula procura
o  indecente
A boca que não quer beijo
suspira
E o corpo
já não quer a mesma presença
Este foi um delírio...
No final só anseio 
do desconhecido.


                                                        

sábado, 15 de janeiro de 2011

DE VOLTA À VIDA

Hoje fui ao meu enterro, não tinha nada demais além de uma manta cor de rosa (quem será que teve esta ideia, esta não é a minha cor favorita), todos me analisando tristemente como o de costume, pois sempre permiti tal análise. Ao lado, um texto me desperta a leitura. Repentinamente desmaio, o que será que aconteceu, realmente não sei, aquele que era meu corpo não fazia parte de mim e toda lembrança que forçosamente tentava resgatar era em vão. Caminhei lentamente até o jardim próximo ao velório, todas as cores eram as mesmas e toda natureza permanecia por si mesma e o meu eu que duvidava ser eu continuou com dúvidas. Retornei à sala fria e me deparei com lágrimas, o meu corpo foi lacrado em uma caixa não muito agradável. Fiquei desesperada, alguém precisava me tirar de lá. Debrucei-me sobre o meu corpo e perguntei o que aconteceu. O silêncio era a única coisa presente. Estava eu sozinha, pensei. No final da tarde, finalizaram a cerimônia com rosas brancas e vermelhas, sinceramente não tinha pensado na minha flor favorita...que estranho, fiquei chocada com este pormenor. Não me importava se estava ali presa dentro de uma caixa de madeira, mas o fato de não saber ao menos minha flor preferida me feriu profundamente e neste instante refleti sobre a minha vida, ou melhor, sobre a minha morte. Será que estava morta o tempo todo? Logo, um balde de terra veio à tona e pesou qualquer coisa que no fim pensava em ser leve. Agarrei-me no galho do pé de amora que ali estava (no todo sempre), retirei o fruto e mastiguei como se fosse o meu último alimento, mas por ser tão sútil desapareceu rapidamente de minha boca. O sabor da fruta era azedo e gostoso, comecei a sorrir, nem sempre o azedo se torna agradável (quase sempre fui azeda ,isto tenho certeza), caminhei até o portão do cemitério e me deparei com uma avenida movimentada, cheia de gente, todos seguiam um destino contrário, esbarrando uns nos outros, com caras e bocas de diferentes estados com o objetivo de encerrar a tarefa momentânea. Ignorei o fato de estar enterrada, e caminhei no meio da multidão. Ao atravessar a rua pisei numa poça, molhei minha meia porque estava com aquele All Star (surrado e furado que não tiro do pé), retomo que, pelo fato de estar morta não me irritei, não é muito legal ficar com o pé todo melecado por causa do tênis fudido, mas por fim, ri da situação. Ah, mas foi muito estranho isto (rir de mim), se fosse antes, pensei. Mas me assustei logo depois, pois se a morte é a inércia perante a tudo e a todos, o que estava eu fazendo neste momento?! Fiquei agoniada, corri um quarteirão e o vento que batia no meu rosto e escorria pela nuca me aprisionava a algo que eu não sei explicar. A minha mente confusa recordava o escrito ao lado do meu caixão e era mais ou menos assim:
"Por fim estou aqui sem saber se cumpri tudo que me aporrinhava, não sei se meu casamento durou, não sei se consegui comprar a minha casa e um carro, não sei se desfrutei da minha aposentadoria, não sei se fiz bem largar o lazer pelo trabalho, não sei se valeu a pena me preocupar com tudo que falaram de mim, não sei se valeu a pena me calar, não sei se perdi a voz ou se aprendi libras, não sei se me identifiquei com algo interessante e se arrumei uma nova profissão, não sei se tive filhos ou se ganhei mais sobrinhos, não sei com quantos transei, não sei se roubei e quantas vezes menti, não sei qual foi o meu pior arrependimento porque no final das contas não sei se vivi."