domingo, 21 de dezembro de 2014

Entregando os pontos

E num estalo,
percebeu que não tinha cartas,
que os amigos eram jogadores,
que perdeu todo o valor num gole de vinho,
que cambaleava sorrindo sem graça nenhuma,
que estava perto pra fazer volume,
que distanciou-se e rompeu com o largo sorriso diurno,
que emagreceu e engordou furtivamente,
que rodopiou com os trapos que lhe sobraram
para participar, ainda assim, da festa
[de barrigas cheias e corações vazios].
Voltou pelo mesmo caminho.
Sorriu como todos os dias.
E dormiu com alívio
por não ser mais o enganador do seu próprio respiro.



Em terra de guilhotina,

 seja a própria lâmina.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Um problema sério com vírgulas e outras pontuações

A embalagem iniciou assim, torta. A pomposa senhora que aguardava o embrulho estava com uma carranca desnecessária. Eu nunca vi alguém comprar um presente com o contra gosto estampado na face. Acredito que este mau olhado foi o que me fez tremer e recortar a medida inexata do papel com flores vermelhas. Completo hoje três semanas como empacotadora no setor presentes. Não era bem o que eu queria, levando em conta o meu histórico volúvel e indeciso em minhas funções trabalhistas, mas não poderia reclamar diante do pequeno surto que tive no emprego anterior. Voltando ao embrulho, quando o terminei, entreguei sorrindo para a dona (como combinado na entrevista com a minha supervisora) e a mesma mão que impulsionava o presente para frente sofria de imediato uma pressão para trás. Sim, era a ruiva esquisita e pomposa que quase me esfrega o embrulho na cara. Contive-me a não descer-lhe a mão na fuça só porque o Maurão ( fofoqueiro de uma figa, almejante do setor de logística e responsável pelo setor de lacre de sacolas suspeitas) não me tirou o olho um minuto se quer. Com isto, soltei uma sutil recusa com a seguinte “o que significa isto, senhora?”. Dentro de poucos minutos uma fila surgiu no meu setor e a minha supervisora quis morrer.  Aliás, em algumas horas atrás, o seu rostinho feliz acabara de se encaixar no quadro de funcionários do mês. De imediato, a doida consumidora me solta uma voz de gralha mal comida exaltando a todos “é natal, querida! Este presente dedico a você, mocinha. Não tive tempo de adotar uma criança na listagem da igreja e achei a tua imagem tão carente desta magia natalina...” Bom, juro que por todos os combinados estabelecidos na contratação do meu cargo, via-me retribuindo o presente com embrulho torto e amaciando as minhas bochechas naquele rosto lotado de cosméticos, mas não deu. Derrubei o embrulho, rodeei o meu balcão, pisei levemente no sapato da madame e o tom creme permitiu a marca exata do meu “super-star” ( você pode não acreditar, mas eu tenho uma imitação fajuta desta linha de tênis popular), apoiei a minha mão no teu ombro largo e ossudo e disse “enfia...no seu”. Ela foi tão rápida no escândalo que nem me permitiu concluir a gloriosa frase e logo toda a linhagem de puxa-sacos já estavam  ao nosso redor. Então, fui obrigada a reformular a seguinte “ enfia este presente na sacola (((do teu cu))), não quero danificar (((a merda toda))) o seu ótimo gosto!” . Os urubus satisfeitos retomaram suas atividades. Subi as escadas do desemprego. E como dizia a minha tia Lina, em seus ataques de esquizofrenia, "você é uma porqueirinha que não para em emprego nenhum!"

Vestida para matar

Palmas.
Pés e tempo, duro tempo...
Cajón.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Queda de energia

No semáforo
pisca o amarelo
escorrega o vermelho
de tanto pensar no verde

Na faixa
tem caminhantes 
 infratores com pressa
em perder o que nunca se teve

No céu
luz natural
peso de nuvens
e um calor mestiço
com as gotas que precisam cair


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Impostos, juros e correção



          Vejo, pelo buraco da porta, ela arriscando apertar a campainha. Seus pezinhos esticados como uma bailarina e arregalando os olhos amendoados. De súbito, escuta o barulho da chave que acabo de derrubar. Droga. Percebeu a vigília e tenta me encarar pelo olho mágico. Fracassa, vira o rosto para a porta de destino e não consegue conter a curiosidade em minha direção. A campainha toca. Recolho a chave do chão, encaixo na fechadura e neste momento, frustrado e apático, falta a coragem para o  encontro. Olho mais uma vez a bela dançarina. Só vejo olhos. São opacos, difusos e me enchem de devaneios. Já se passaram uns cinco minutinhos e a moça continua ali, parada. Meu pulso arrisca o comando do giro da chave e é interrompido por passos pesados vindos da escadaria. Sim, busco minha janelinha vil e observo a maluca dançando com o seu João (velhinho caduco e desesperado, ele sorri) e de imediato ela entrega um papel. Caminha saltitante rumo à escadaria. Condeno-me esticado na parede, ao desperdiçar tamanha ousadia, e ridicularizo a minha imaginação fértil. Ao abaixar a cabeça vejo um papel beirando a porta. Pego, abro e leio “da próxima vez, vista-se...ou arrombarei a sua porta!”. Sim, estava de cueca (furada, por sinal). E ela nem sabe das toneladas de roupas sujas que tenho para lavar e da falta de sabão em pó. Este mês foi dureza, só foi! Não seria possível nem um café com bolachas salgadas para a visitante rebelde. Após o drama, procuro velas, cortaram a luz, mas preciso escrever. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

domingo, 21 de setembro de 2014

Polar(idade)

          Nem parecia inverno, mas a lã estava no corpo. Como também, o beija-flor pendurado no galho de árvore seco enroscado no alambrado da pequena casa. Sem o movimento brusco da ventania, o zumbido dos insetos era como helicópteros ao pé do ouvido unidos ao esfregar da roupa suja no tanque. 
          Lembro-me que, quando criança, certos relatos me deixavam de cabelo em pé sobre os dias de chuva ou de frio. Num dia como este, alguém no canto da pequena área de serviço fora atingido por um raio enquanto lavava a roupa. O meu maior medo era que, porventura, isto acontecesse à minha mãe. Pra completar estes temores da infância, imagens aterrorizavam-me num pesadelo de capítulo único por várias noites, o meu vô sendo engolido pela terra ao tentar nos proteger com os braços esticados. E aqueles braços finos com notória fragilidade me agoniava, queria agarrá-los com força, mas por sorte ou azar sempre acordava nesta parte. Voltando à fragilidade dos braços, pudera, do tanto que carpiu terrenos nesta cidade ( provinciana, predadora nos mais divinos e atormentados fetiches) até a chegada velhice.
       Hoje, meu querido, se estivesse por aqui, até reproduziria o discurso direitista da chegada "mogianidade" por pura gratidão ou inocência...O ar seco permaneceu e a sensação de que tenho mais queridos se tornando frágeis pelo trabalho diário,também. A madrugada fria e louca promete um variável dia de sol com pouca água. O pensamento segue neste desequilíbrio com desconexas lembranças e se fazem analogias às previsões do tempo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Damasco

sob a pele já molhada,
um simples consumo,
  a fúria dos sentidos,
 o engano medido pelo controle,
a metade pelo lado inverso do corpo,
o medo ,o beijo e o caos...
por onde transpira o sal.
e transpira.

o tempo todo.


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Itálico

Pensamento é quase um prisioneiro,
que arrasta as mãos por suas grades enquanto tudo vê.
Aceita visitas como agressões e afagos desesperados.
Apropria-se da defesa dos rebeldes,confusões ou fugas .
Não leciona a sua liberdade, pois é um pragmatista.
Não obriga a tua vaidade  ficar presa em belas fotografias.
Só flutua- Só arrisca -Só desfruta- Do medo tenso-Ou das palavras sorrateiras.
Neste corpo  tolo cheio de benfeitorias.
Neste peso morto, que corre atrás do movimento brio.
Como crianças com suas pipas coloridas,
 hipnotizadas  pelo vento no encantamento
branco das nuvens...

[Palavras soltas da língua que não se mexe]

...
Dos nós que não desatam.
Da fúria de qualquer brincante.
Do frio que não se cala. 
Da tua boca, mentiras surpreendentes.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Bifurcação

Tem dia que a gente quer ser melhor, só um pouquinho...
Tem dia que a gente quer colar a boca pra não proferir tantos defeitos.
Tem dia que a gente abre a alma pra qualquer um,
só pra testar a programação imediata da vida...

Mas quase sempre,
o corpo está colado em alguma cadeira que nada faz.·

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Texto sem memória

O meu corpo controla o surto do que sou.
As horas param o tempo do meu olhar.
O barulho, sempre o barulho, beliscam os nervos.
E eu acordo do sonho de olhos abertos.
Me observo rodeada de crianças
que são por elas o que quiserem ser,
apesar de esperarem deste corpo um consentimento
leve e risonho com o até logo.
Espero não gritar mais.
Preciso correr, queimar a tensão...
pra não jogar tudo pro alto
e levar uma pancada na testa
com a queda de tudo que lancei a mão.