domingo, 25 de novembro de 2012

Areia Movediça


        Eles caminham pelas rochas da praia. A paisagem é muito bonita. Eles riem, pulam, fazem piadas fora de momento. Pedro entra na água. Camila não arrisca, o sol está fraco, tem medo de sentir frio e não conseguir se esquentar. Pedro não entende, acha isto bobo, e vai só.
      Camila o admira de longe, rabisca o chão de areia, olha o cachorrinho correndo atrás de um pedaço de pau que é lançado ao vento e olha para o céu turvo. Pedro sai da água todo arrepiado e decide correr beirando o mar para se esquentar. Camila queria se levantar e correr atrás de Pedro, só Deus sabe o que te fez ficar.
     Na volta, eles passam pelo mesmo caminho da ida, o que era subida virou descida. Camila não consegue pular de uma pedra. A sua perna treme e sua voz tranquila vira histeria. Pedro não acredita no que vê, automaticamente lança uma mensagem irônica pra estimular a moça que não suporta depreciações de outrem.
      Pula! Pedro diz.
      Eu não consigo, já disse, tenho medo. Responde Camila.
    Camila imagina em versões rápidas seu pé torcendo entre outras coisas ruins. Ao mesmo tempo procura outra saída, analisando o espaço.
    Pedro perde a paciência.
   Camila se apoia na pedra ao lado, tenta chorar por causa da vergonha que sentiu, mas também não consegue.
    A maré está alta. Os dois observam a onda que bate na pedra e arrasta a areia mudando a geografia daquele lugar.


domingo, 16 de setembro de 2012

Sinto o tempo passar, mas não sei que horas são.


    Sentada, meus pés procuram no escuro o par de chinelos às avessas, as mãos apalpam a parede na procura do interruptor, os olhos não estão morteiros (caminham sobre o breu e identificam um pequeno foco de luz da janela). Bem, assim foi esta noite. A insônia surgiu como amiga íntima reavivando pensamentos adormecidos.
   Com passos inconscientes e lentos caminho para o próximo cômodo, puxo a cadeira e observo o céu pela porta de vidro. A madrugada e sua calmaria segue o fluxo do movimento dos dias sem pedir a permissão para os coadjuvantes deste planeta. A mente parece se equilibrar no som do ponteiro que gira no relógio quebrado. Sempre me esqueço de tirá-lo da parede. Apesar do defeito, ele se encontra onipresente em qualquer piscar de vento, no ronco da barriga, na lágrima que escorre, nas cócegas e desejos, na cobrança, no nó entalado na garganta, no controle obrigatório fincado na chegada e saída pela porta principal da casa alugada e trava no sorriso desprendido das horas.
   - Nega, vem cá , por favor!Não consigo dormir também...
   Volto pra cama, abraço a pessoa amada e durmo.

terça-feira, 3 de julho de 2012

o céu de Guaianases

No caminho para casa a encontrei.
Ela me disse boa noite,
vá com cuidado...
Quando percebeu o meu sorriso
distanciou-se para que não houvesse o apego...
Os barulhinhos do cascalho na estrada me obrigam com o olhar
retribuir um até logo àquele brilhante preso no céu escuro...

(o céu de Guaianases- 03/07)

domingo, 25 de março de 2012

O Último Tango


 A noite estava calma e nenhuma situação curiosa. A minha cerveja estava quase quente por conta da monotonia. Uma bela garota senta-se com sua saia rodada azul de bolinhas brancas na mesa à frente. O seu companheiro caminha impaciente até o balcão e pede uma cerveja pra acompanhar a situação. A moça perdida,  olha distante para as ruas, não sei se ela acompanha o movimento dos carros ou se quer identificar pessoas naquele trânsito. Já o rapaz, não consegue encará-la, há uma tensão presente e a minha falta do que fazer naquela sexta-feira me aprisionou àquele casal.  A minha mesa está a quatro passos de distância do rapaz, o meu olhar consegue observar bem a feição da moça. Suas mãos inquietas são levadas ao queixo, depois à mesa, logo se cruzam com os braços finos e novamente se apoiam na altura das bochechas. O rapaz acompanha o seu pão de queijo com água, a menina bebe rapidamente a breja. Sinto uma vontade incontrolável de me aproximar e poder participar daquela conversa como ouvinte, os lábios da garota se movem da lentidão até o exagero, a menina chora e ri em seguida, como se estivesse com a alma dividida na perda e na vitória de teu discurso. O rapaz move a cabeça de um lado para o outro, que pena que não consigo perceber sua manifestação frontal, está de costas para mim. Meu celular toca. Era Karine, desesperada como sempre. Enrolo pra atender, mas a bicha não desiste, aperto o verdinho do teclado com lamentação. As cobranças iniciam-se e eu desesperado por perder a continuidade do caos romântico ao lado. Karine me cobra pequenas coisas, aliás, ela só sabe cobrar (chamo-a carinhosamente de agente bancária particular, ela me suga a alma). Por indiferença, Karine desiste do diálogo (quase um monólogo) com o maridão, e eu fico com um sorriso estreito nos lábios contando os segundos em que minha queridinha irá desligar o telefone ( na minha cara, como sempre). Depois da premonição realizada, peço mais uma para o garçom e retomo o meu alvo. O caos dominou a situação , a garota está furiosa e consigo ouvir a seguinte frase “ exemplifique, exemplifique!! Você argumenta demais, é somente um domínio de sua retórica. Exemplifique o nosso erro, exemplifique!”O rapaz está quase desistindo da conversa. Penso eu, que a beleza da garota o aprisiona, não por ser a única mulher a cobiçar, mas por saber que ela está a sua disposição. O garçom se aproxima da minha mesa, para trazer o pedido, e percebe que  estou fissurado pela briguinha cotidiana de casais e logo faz um adendo “ este aí, vai tomar uma bica das braba!”,eu nem dei trela e o cara voltou com seus afazeres . Num súbito o rapaz espirra uma frase ( Xeque-Mate, se assim o posso nomear) “olha me desculpa, se eu preciso saber do universo feminino , você precisa entender o universo”. A garota levanta, com um andar elegante, o rapaz segue o ritual com um semblante  de arrependimento, e eles desaparecem no fluxo noturno urbano. Eu me sinto um pouco tonto,  lembro-me de karine, de tua voz, de tua nuca, de tuas pernas, da comidinha boa que faz e outras coisas que não iria relatar aqui. Decido ir pra casa e pedir milhares de desculpas (como sempre) e dizer que a amo. Acendo o meu cigarro e vou caminhando sossegado pra my house, baby. Chegando lá, enrolo pra abrir o portão, me perco com o molho de chaves, subo as escadas, abro a porta da sala e sinto a falta de Karine. Corro para o quarto, vou até a lavanderia, que desespero, aonde esta mulher se meteu? Sigo para o banheiro atordoado, abro o armarinho pra pegar o sabonete  e que susto! Karine me deixou uma carta.
        “... Oi , Rafael! Serei breve. Hoje te deixo livre, leve e solto! Ok!
Já me senti só por muitas noites a tua espera. Arrisco por várias vezes dá uma voltinha pelo bairro e encontrar o alfabeto inteiro de possibilidades a meu favor, entretanto, sempre te coloco em 1º plano. Com seus inúmeros contatos, acredito que tenha se divertido ao me trocar por tão pouco, ou, por tão muito nesta noite em que completamos sete anos de união (por instável  que seja!) . Sei que hoje, chegaria a ouvir milhares de desculpas e a palavra te amo querida... Mas posso te dar um toque? Dizer é fácil meu amor...Medíocre é não comparecer!
Beijos de uma mulher que te amou muito e cansou de esperar por pelo menos um dia que  você fosse o seu  príncipe encantado (o que realiza pequenos detalhes de uma boba esposa), aliás, eu sempre soube dos teus defeitos...boa sorte.”
   Depois de ler, minhas pernas bambearam... Karine sempre me ameaçava, dizia que iria passar uns dias na casa da mãe, mas nunca cumpria. Cai na cama e chorei. Ela era a minha única possibilidade. O rei está morto.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Amor

Como um novelo de lã. Um enrolado artesanal. 
Quando tricotado, molda-se de acordo com a necessidade.
Depois de pronto, tem sua importância.

Acalma o tremor, protege-te do frio.
Ele pode ter seu fim, como acessório fora de moda.
Agora, se for tratado com valor inestimável,

mesmo com os fiapos e/ou defeitos que surgem com o passar do tempo,
será guardado para sempre....
Diante destas condições necessita de cuidados especiais diariamente.
Sabe-se que as tesouras estão sempre por perto,
um perigo evidente com o retalhamento.
Entretanto, não se preocupe!
A vida está repleta de retalhos...