terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Não fechem a minha escola...

Esta escola
tem protagonismo de bairro,
pela estrada de terra ou pelo asfalto.
Uma poeira que poucos conhecem,
já que o ônibus quebra antes do destino que segue.
Tem organização caseira sem wifi.
De casa em casa, de grão em grão,
de abaixo-assinado, de ocupação.
 E do  portão adentro ou afora,
sem seguir o expediente ,
tem pai e mãe/ 
aluno e vizinho 
que pede a ajuda da gente.
Não é com grana ou manipulação
...
Mas com solidariedade à educação.
Que não se faz entre papéis timbrados,
e sim com o envolvimento dos usuários.


*...texto poético inspirado após contato com mães e pais que ocupam a EE Professor Francisco de Souza Melo no bairro do Botujuru em Mogi das Cruzes. Neste caso, a particularidade da ação coletiva da comunidade escolar  que não aceita a "reorganização escolar" proposta para esta unidade, sujeita a transportar alunos de determinado ciclos para unidades distantes e/ou fechamento das mesmas com acréscimo de inúmeras dificuldades   adicionadas a luta de preservar o local na qual predomina-se a identidade historicamente construida por seus pertencentes ao longo de gerações. 

Ajude como puder. Esta é a nossa força!
 






segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Pequenos desvios

imagem:Victor Hugo Porto/mulheres
Rosane teve um surto ontem a noite. Cismou que queria limpar a casa. Fui dormir. No dia seguinte, a encontrei estirada no chão da sala. Ainda suspirava. Era uma crise e quando cheguei perto de seu rosto pálido a fúria de seu suspiro rouco tomou conta do espaço. Os livros cheiravam a lustra-móvel. O chão frio demarcado por suas mãos empoeiradas. A chacoalhei como um lençol que acabara de ser retirado do varal. Ela retribuíra o corpo entregue à bagunça neurológica com olhar atônito. Desisti. Larguei mão. Na cozinha preparava o café solitário, perdido, sem o pote de açúcar. Tomei o amargo. Saio pra rua, recolho o jornal e descanso sentado no degrau da entrada da casa. Suas mãos abraçam e libertam meus olhos como pisca-pisca em noite de natal, fazendo vertigens com a visão que tenho da rua...

Ela não aguenta qualquer calmaria.







segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Santo remédio



Todo final de tarde, ela senta na calçada e espera.

 Espera como um cão quando está com fome.

 Espera ridiculamente sem graça com todos os seus atributos desejáveis.

 Finalmente, se depara com o hospedeiro.

Este sai, cansado da labuta e seus causos sem sucesso.

Ela pula indiscretamente em comemoração a tão chegada hora.

Num flerte tosco, insiste numa reciprocidade,

luta contra a natureza de invadir.

Notória paciência é levada até o local residente do hospedeiro.

Este se entrega a um sofá e solta lamúrias, um saco.

Momento fatigante.
É hora de acabar logo com isto...

Pelos olhos,
Pela mente,
Pela boca,
Pelo corpo todo.
A invasão foi pura Arte.

E o hospedeiro? 

- Grudado com ela, virou gente!


 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Sábado de Aleluia


 


Em quase dez minutos esperando o semáforo mudar de cor, vi um acidente. Duas pombas se engalfinhavam, enquanto voavam baixo, com aquele peso gerado por migalhas e restos de alimentos suspeitos. Sim, também vi pedestres atravessando a via, enquanto eu paralisado com as cores que não repetiam a sua sequencia. Era sábado progresso. Era dia de fluxo. Era dia de motoqueiro ainda fazer corredor. Era dia de ficar em casa pra fazer faxina. Era dia de correr e não parar por dez minutos com detalhes convencionais sem importância. Foi aí que cheguei em outra calçada e parei por mais um tantinho de tempo. Vi uma chuva de folhas...Era dia de se perder. Era dia de ler na praça. Era dia de pagar um sorvete pra criança. Era dia de gelada no bar.  Era dia de enxergar.E ainda tinha tempo.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Estr[abismo]

Olhos rendidos na clareza do dia,
 mesmo com tanta vidência,
não tenho a certeza do que me acontece.
Seria glorioso prever o futuro
e amparar a fatídica tristeza sem deslumbre.
Seria glorioso comemorar antes,
mesmo num giro proposital, pra demonstrar alegria.
Olhos pairados na escuridão da noite,
mesmo querendo descanso,
movimentam-se de um lado para o outro.
Imensurável prazer é quando sonho
e num só golpe quebro o medo. 
Imensurável prazer é quando acordo
de um pesadelo febril em que me estrepo.

Olhos dentro de seus desvios,
não me abandone
sequer
ultimamente.




sábado, 18 de julho de 2015

Roleta Russa



  Na cela, ninguém queria saber.
  Ela não chorava.
  Também não sorria.
  Rabiscava o chão.
  O que pensava em todas as horas
  era se o fato de ser assassina   
  combinava com a bacia cheia de roupa
  que lançou pela janela  e caíra ironicamente
  na cabeça do falecido cidadão.

 Coisa de azar é que nem loteria,
                                tem que ter muita sorte.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Temos vagas!!



"Um passo atrás do outro. E não olha pra trás. Já falei pra não falar por cima de mim... E não me olhe de soslaio!" Estas pegajosas frases de efeito, de todo santo dia, agarravam as orelhas e era muito fácil decorar o compasso desnecessário e a tonicidade das palavras naquele simplório discurso. No fundo, ela queria  um coral clamando por juízo e disciplina.

A cabeça doía da nuca até o meio do redemoinho do cabelo frisado. Era como se houvesse uma carreata de piolhos em busca de um único foco de sangue no couro cabeludo. E aquela coceira ardente quebrou toda tranquilidade da mesmice obediência. De imediato ouvi os passos que atropelavam a poeira da tarde fria e acelerava a rotação do ar, pronto, chegou o furacão. Levei uns tabefes na cabeça que mandou toda aquela pediculose pros ares. O alívio foi tão enlouquecedor, que a abracei com força, dizendo que a casualidade me rendeu uma sensação libertadora. Um choque. Aqueles olhos castanhos escuros se debulharam em lágrimas, e a voz firme autoritária se rompeu em gemidos graves. A minha blusa suada, devido o caminho que percorreste, serviu de lenço. Logo, ela cai em si, percebe o surto que escancara quem realmente é. Retira do bolso esquerdo de seu casaco um contracheque, joga no chão, pisoteia até rasgar. Beija-me a boca, agradece baixinho, obrigada.

No dia seguinte, não a vi passear bravamente pelo pátio. Eu sinceramente fiquei mexido, estranho...O que será que ela fez da vida. Um  amigo me contou que juntaram os pedaços de seu contracheque e descobriram o valor real de seu cargo, ganhava muito bem. A equipe de suporte e demanda recolheram informações pontuais sobre o cargo para formularem um processo de seleção. Cordialmente, lançaram os informes: "temos vagas". A multidão vibra, como se fosse a melhor notícia do ano.




terça-feira, 5 de maio de 2015

Rogai por nós


As tardes mais divertidas da infância. 
A mão aberta e o polegar que puxa o sinal da cruz  
(na testa, depois pra boca e fecha no peito).
 A nossa voz aguda, quase em destaque,
 entre as vozes roucas, estridentes, tímidas ou tremulas.
 Aquele coral que pegava quarteirão de final da tarde,
com o passar das bolinhas de um colar opaco,
onde a alegria era botá-lo no pescoço indevidamente.
 Era também olhar a língua do mulherio
 que se enrolava rápido com o coro repetitivo.
 Mas nada superava a tão aguardada paçoca
 feita na hora pela "tia Cida"...
Depois disso,
 chispa pra rua, com o copinho cheio de doce na mão
 e bora brincar de esconde-esconde, polícia e ladrão, jeans, mamãe polenta,
futebol quebra-canela, taco, bobinho, estrela novacela, 
picuinhas e blá-blá-blá...
Até que o desentendimento saudável da molecada
 fizesse todos correrem para dentro  de suas casas,
pensando no dia seguinte.

E que venha o dia de São Cosme e Damião.


(Imagem: Dalva de Barros)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Variante

 Verdade.
 Eu não queria te perder
 e até chorei na manhã seguinte
 após um sonho maluco.

Se um dia eu precisar partir,
 recolho os poucos livros que comprei.

 São estes os únicos atos que fiz
 pensando somente
                                                              em mim.