quinta-feira, 23 de julho de 2015

Estr[abismo]

Olhos rendidos na clareza do dia,
 mesmo com tanta vidência,
não tenho a certeza do que me acontece.
Seria glorioso prever o futuro
e amparar a fatídica tristeza sem deslumbre.
Seria glorioso comemorar antes,
mesmo num giro proposital, pra demonstrar alegria.
Olhos pairados na escuridão da noite,
mesmo querendo descanso,
movimentam-se de um lado para o outro.
Imensurável prazer é quando sonho
e num só golpe quebro o medo. 
Imensurável prazer é quando acordo
de um pesadelo febril em que me estrepo.

Olhos dentro de seus desvios,
não me abandone
sequer
ultimamente.




sábado, 18 de julho de 2015

Roleta Russa



  Na cela, ninguém queria saber.
  Ela não chorava.
  Também não sorria.
  Rabiscava o chão.
  O que pensava em todas as horas
  era se o fato de ser assassina   
  combinava com a bacia cheia de roupa
  que lançou pela janela  e caíra ironicamente
  na cabeça do falecido cidadão.

 Coisa de azar é que nem loteria,
                                tem que ter muita sorte.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Temos vagas!!



"Um passo atrás do outro. E não olha pra trás. Já falei pra não falar por cima de mim... E não me olhe de soslaio!" Estas pegajosas frases de efeito, de todo santo dia, agarravam as orelhas e era muito fácil decorar o compasso desnecessário e a tonicidade das palavras naquele simplório discurso. No fundo, ela queria  um coral clamando por juízo e disciplina.

A cabeça doía da nuca até o meio do redemoinho do cabelo frisado. Era como se houvesse uma carreata de piolhos em busca de um único foco de sangue no couro cabeludo. E aquela coceira ardente quebrou toda tranquilidade da mesmice obediência. De imediato ouvi os passos que atropelavam a poeira da tarde fria e acelerava a rotação do ar, pronto, chegou o furacão. Levei uns tabefes na cabeça que mandou toda aquela pediculose pros ares. O alívio foi tão enlouquecedor, que a abracei com força, dizendo que a casualidade me rendeu uma sensação libertadora. Um choque. Aqueles olhos castanhos escuros se debulharam em lágrimas, e a voz firme autoritária se rompeu em gemidos graves. A minha blusa suada, devido o caminho que percorreste, serviu de lenço. Logo, ela cai em si, percebe o surto que escancara quem realmente é. Retira do bolso esquerdo de seu casaco um contracheque, joga no chão, pisoteia até rasgar. Beija-me a boca, agradece baixinho, obrigada.

No dia seguinte, não a vi passear bravamente pelo pátio. Eu sinceramente fiquei mexido, estranho...O que será que ela fez da vida. Um  amigo me contou que juntaram os pedaços de seu contracheque e descobriram o valor real de seu cargo, ganhava muito bem. A equipe de suporte e demanda recolheram informações pontuais sobre o cargo para formularem um processo de seleção. Cordialmente, lançaram os informes: "temos vagas". A multidão vibra, como se fosse a melhor notícia do ano.