domingo, 2 de outubro de 2011

O CORPO DE QUEM SE FOI


Numa viagem de 45 minutos a mão se estende ao cabo de aço trêmula.
Os pássaros observam cada movimento daquele estranho ser, pousados na janela.
Os olhos cheios de lágrimas fitam um céu sem sol e com muitas nuvens, a lágrima cai.
O bolso pesa uma caneta e uma folha de sulfite, a barriga ronca e faz com que o corpo desista da ereção, o descanso dita as regras.
A móvel lataria reduz a velocidade, terra à vista!
Um novo passageiro a bordo, ele tem direito ao banco preferencial.
O corpo levanta e concede o lugar a quem lhe é direito.
As pernas adormecem com o peso do corpo e da alma.
Um ambulante vende uma goma de mascar, sua boca amarga suplica a compra do chiclete.

Por não ter o valor do produto, distribui um leve sorriso aos companheiros de vagão e contorce todo o corpo num movimento artístico, lembranças da quarta série ( danças no recreio).
A platéia se comove com o desespero.
O corpo estica a camisa surrada pra arrecadar algumas moedas merecedoras do teu desempenho.
 No total, R$1,75.
O ambulante retoma sua venda.
O corpo levanta as sobrancelhas indicando a compra do produto.
O valor, R$1,70.
Passado 15 minutos, seu destino é indicado pelo apito da porta.
Os pés seguem o ritmo das longas pernas magras em direção ao banco de espera na plataforma.
Ninguém lhe espera. A cabeça dói.
As mãos sem ter apoio escorregam até o bolso da calça e logo retiram o ínfimo peso.
O corpo senta, segura a caneta e apóia a folha de papel nas coxas.
Arrisca- se num poema, a caneta falha. Com a insistência do grifo no papel, a folha se rompe e se esconde amassada entre as pernas.
O vento lhe indica a saída, o corpo caminha com uma moeda de cinco centavos.
Pensa. Cara ou Coroa?
Joga a moeda para o alto e estende a palma das mãos.
A moeda quica em sua pele e rola pelo chão,
 o sedentarismo não o permite resgatar o dinheiro a tempo,
ela cai nos trilhos.
Os olhos fitam a moeda.
Os braços se cruzam para trás.
O pé esquerdo balança de um lado para o outro, apoiado pelo calcanhar.
A mente lembra-se de um trecho de uma canção do Raul Seixas

“Ó, olha o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais...
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar...
Ó, ó o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral...
Quem vai chorar?Quem vai sorrir?
Quem vai ficar? Quem vai partir?”


 A lembrança é interrompida pela curiosidade e dúvida sobre o nome da canção.
Óia o trem? Trem? Trem que chora? Trem da partida? Trem sem saída?
Eu sei o nome!?. Qual é?
O cansaço físico e mental lhe deve uma resposta.
O corpo esquece tudo, caminha e vai embora.


Um comentário:

  1. E aí, cris?!
    Só pra constar, você é foda...
    Um dia quero passar tantos sentimentos, por meio dos textos, quanto você o faz...

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