Numa viagem de 45 minutos a mão se estende ao cabo de aço
trêmula.
Os pássaros observam cada movimento daquele estranho ser,
pousados na janela.
Os olhos cheios de lágrimas fitam um céu sem sol e com
muitas nuvens, a lágrima cai.
O bolso pesa uma caneta e uma folha de sulfite, a barriga
ronca e faz com que o corpo desista da ereção, o descanso dita as regras.
A móvel lataria reduz a velocidade, terra à vista!
Um novo passageiro a bordo, ele tem direito ao banco preferencial.
O corpo levanta e concede o lugar a quem lhe é direito.
As pernas adormecem com o peso do corpo e da alma.
Um ambulante vende uma goma de mascar, sua boca amarga
suplica a compra do chiclete.
Por não ter o valor do produto, distribui um leve sorriso
aos companheiros de vagão e contorce todo o corpo num movimento artístico,
lembranças da quarta série ( danças no recreio).
A platéia se comove com o desespero.
O corpo estica a camisa surrada pra arrecadar algumas moedas
merecedoras do teu desempenho.
No total, R$1,75.
O ambulante retoma sua venda.
O corpo levanta as sobrancelhas indicando a compra do
produto.
O valor, R$1,70.
Passado 15 minutos, seu destino é indicado pelo apito da
porta.
Os pés seguem o ritmo das longas pernas magras em direção ao
banco de espera na plataforma.
Ninguém lhe espera. A cabeça dói.
As mãos sem ter apoio escorregam até o bolso da calça e logo
retiram o ínfimo peso.
O corpo senta, segura a caneta e apóia a folha de papel nas
coxas.
Arrisca- se num poema, a caneta falha. Com a insistência do
grifo no papel, a folha se rompe e se esconde amassada entre as pernas.
O vento lhe indica a saída, o corpo caminha com uma moeda de
cinco centavos.
Pensa. Cara ou Coroa?
Joga a moeda para o alto e estende a palma das mãos.
A moeda quica em sua pele e rola pelo chão,
o sedentarismo não o
permite resgatar o dinheiro a tempo,
ela cai nos trilhos.
Os olhos fitam a moeda.
Os braços se cruzam para trás.
O pé esquerdo balança de um lado para o outro, apoiado pelo
calcanhar.
A mente lembra-se de um trecho de uma canção do Raul Seixas
“Ó, olha o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não
é mais...
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar...
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar...
Ó, ó o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance
astral...
Quem vai chorar?Quem vai sorrir?
Quem vai ficar? Quem vai partir?”
A lembrança é
interrompida pela curiosidade e dúvida sobre o nome da canção.
Óia o trem? Trem? Trem que chora? Trem da partida? Trem sem
saída?
Eu sei o nome!?. Qual é?
O cansaço físico e mental lhe deve uma resposta.
O corpo esquece tudo, caminha e vai embora.
E aí, cris?!
ResponderExcluirSó pra constar, você é foda...
Um dia quero passar tantos sentimentos, por meio dos textos, quanto você o faz...