Ela corre pelo corredor e desce as escadas.
O vento lhe avisa, ao abrir a porta, que terá companhia...
Em alguns passos a garoa lhe serve como amiga.
Dora fuça a bolsa, apoiada pela cintura, e pega seu radinho. A música já está no ponto.
No caminho não consegue pensar em nada, simplesmente segue o fluxo até que se vê parada em frente a um espaço cultural da cidade observando algumas pessoas sorridentes.
Dora ri, ou, adora rir.
Quando seus pés atingem aquele mundo, Dora se cala.
Tímida, pega um folheto e encosta na parede. É um sarau, percebe.
Procura informação, aquieta-se numa cadeira e o espetáculo começa falando de amor...
De artistas para artistas, uma troca de elogios.
Dora e seu entusiasmo. Pasmo. Louco. Enganado com tal pertencimento... que não a pertence.
Um amigo lhe inscreve todo empolgado e crente de que todos serão receptivos com a menina, um engano.
Dora não tinha renome, não tinha contatos, só era Dora. Simplesmente, Dora.
Depois de um conto, um cordelista, uma cantora e um ator, Dora sobe no palco.
Uma metralhadora de olhares penetra a garota.
Sua voz se cala, a insegurança vira o teu manto e a menina treme de frio.
Canta uma canção triste de olhos fechados, tenta encontrar um esconderijo, sua voz treme e o público prepara a guilhotina.
No final, Dora não se saiu muito bem, retira-se cabisbaixa.
O espetáculo continua com algumas alfinetadas à apresentação anterior, Dora se remexe no estofado com dor e percebe que o sentimento está travado na garganta e que a arte é apenas uma brincadeira maldosa. A “Arte” para “Artistas”.
Num súbito, a menina corre pelo corredor, desce as escadas, o vento lhe avisa que terá ar pra respirar...
Em alguns passos a garoa aperta. Dora só queria um guarda-chuva.

Nenhum comentário:
Postar um comentário