domingo, 21 de setembro de 2014

Polar(idade)

          Nem parecia inverno, mas a lã estava no corpo. Como também, o beija-flor pendurado no galho de árvore seco enroscado no alambrado da pequena casa. Sem o movimento brusco da ventania, o zumbido dos insetos era como helicópteros ao pé do ouvido unidos ao esfregar da roupa suja no tanque. 
          Lembro-me que, quando criança, certos relatos me deixavam de cabelo em pé sobre os dias de chuva ou de frio. Num dia como este, alguém no canto da pequena área de serviço fora atingido por um raio enquanto lavava a roupa. O meu maior medo era que, porventura, isto acontecesse à minha mãe. Pra completar estes temores da infância, imagens aterrorizavam-me num pesadelo de capítulo único por várias noites, o meu vô sendo engolido pela terra ao tentar nos proteger com os braços esticados. E aqueles braços finos com notória fragilidade me agoniava, queria agarrá-los com força, mas por sorte ou azar sempre acordava nesta parte. Voltando à fragilidade dos braços, pudera, do tanto que carpiu terrenos nesta cidade ( provinciana, predadora nos mais divinos e atormentados fetiches) até a chegada velhice.
       Hoje, meu querido, se estivesse por aqui, até reproduziria o discurso direitista da chegada "mogianidade" por pura gratidão ou inocência...O ar seco permaneceu e a sensação de que tenho mais queridos se tornando frágeis pelo trabalho diário,também. A madrugada fria e louca promete um variável dia de sol com pouca água. O pensamento segue neste desequilíbrio com desconexas lembranças e se fazem analogias às previsões do tempo.

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