Vejo, pelo buraco da porta, ela arriscando apertar a
campainha. Seus pezinhos esticados como uma bailarina e arregalando os olhos
amendoados. De súbito, escuta o barulho da chave que acabo de derrubar. Droga.
Percebeu a vigília e tenta me encarar pelo olho mágico. Fracassa, vira o rosto
para a porta de destino e não consegue conter a curiosidade em minha direção. A campainha toca. Recolho a chave do chão, encaixo na fechadura e neste
momento, frustrado e apático, falta a coragem para o encontro. Olho mais uma
vez a bela dançarina. Só vejo olhos. São opacos, difusos e me enchem de
devaneios. Já se passaram uns cinco minutinhos e a moça continua ali, parada.
Meu pulso arrisca o comando do giro da chave e é interrompido por passos
pesados vindos da escadaria. Sim, busco minha janelinha vil e observo a maluca
dançando com o seu João (velhinho caduco e desesperado, ele sorri) e de
imediato ela entrega um papel. Caminha saltitante rumo à escadaria. Condeno-me
esticado na parede, ao desperdiçar tamanha ousadia, e ridicularizo a minha imaginação fértil. Ao
abaixar a cabeça vejo um papel beirando a porta. Pego, abro e leio “da próxima
vez, vista-se...ou arrombarei a sua porta!”. Sim,
estava de cueca (furada, por sinal). E ela nem sabe das toneladas de roupas sujas que tenho para lavar e da falta de sabão em pó. Este mês foi dureza, só foi! Não seria possível nem um café com bolachas salgadas para a visitante rebelde. Após o drama, procuro velas, cortaram a luz, mas preciso escrever.
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