A embalagem iniciou assim, torta. A pomposa senhora que
aguardava o embrulho estava com uma carranca desnecessária. Eu nunca vi
alguém comprar um presente com o contra gosto estampado na face. Acredito que
este mau olhado foi o que me fez tremer e recortar a medida inexata do papel
com flores vermelhas. Completo hoje três semanas como empacotadora no setor
presentes. Não era bem o que eu queria, levando em conta o meu histórico volúvel
e indeciso em minhas funções trabalhistas, mas não poderia reclamar diante do
pequeno surto que tive no emprego anterior. Voltando ao embrulho, quando o terminei,
entreguei sorrindo para a dona (como combinado na entrevista com a minha
supervisora) e a mesma mão que impulsionava o presente para frente sofria de
imediato uma pressão para trás. Sim, era a ruiva esquisita e pomposa que quase
me esfrega o embrulho na cara. Contive-me a não descer-lhe a mão na fuça só porque
o Maurão ( fofoqueiro de uma figa, almejante do setor de logística e
responsável pelo setor de lacre de sacolas suspeitas) não me tirou o olho um
minuto se quer. Com isto, soltei uma sutil recusa com a seguinte “o que
significa isto, senhora?”. Dentro de poucos minutos uma fila surgiu no meu
setor e a minha supervisora quis morrer.
Aliás, em algumas horas atrás, o seu rostinho feliz acabara de se
encaixar no quadro de funcionários do mês. De imediato, a doida consumidora me
solta uma voz de gralha mal comida exaltando a todos “é natal, querida! Este presente dedico a você, mocinha. Não tive tempo de adotar uma criança na listagem da
igreja e achei a tua imagem tão carente desta magia natalina...” Bom, juro
que por todos os combinados estabelecidos na contratação do meu cargo, via-me
retribuindo o presente com embrulho torto e amaciando as minhas bochechas
naquele rosto lotado de cosméticos, mas não deu. Derrubei o embrulho, rodeei o
meu balcão, pisei levemente no sapato da madame e o tom creme permitiu a marca
exata do meu “super-star” ( você pode não acreditar, mas eu tenho uma imitação
fajuta desta linha de tênis popular), apoiei a minha mão no teu ombro largo e
ossudo e disse “enfia...no seu”. Ela foi tão rápida no escândalo que nem me
permitiu concluir a gloriosa frase e logo toda a linhagem de puxa-sacos já
estavam ao nosso redor. Então, fui obrigada a
reformular a seguinte “ enfia este presente na sacola (((do teu cu))), não quero danificar
(((a merda toda))) o seu ótimo gosto!” . Os urubus satisfeitos retomaram suas
atividades. Subi as escadas do desemprego. E como
dizia a minha tia Lina, em seus ataques de esquizofrenia, "você é uma porqueirinha que
não para em emprego nenhum!"
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