terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Um problema sério com vírgulas e outras pontuações

A embalagem iniciou assim, torta. A pomposa senhora que aguardava o embrulho estava com uma carranca desnecessária. Eu nunca vi alguém comprar um presente com o contra gosto estampado na face. Acredito que este mau olhado foi o que me fez tremer e recortar a medida inexata do papel com flores vermelhas. Completo hoje três semanas como empacotadora no setor presentes. Não era bem o que eu queria, levando em conta o meu histórico volúvel e indeciso em minhas funções trabalhistas, mas não poderia reclamar diante do pequeno surto que tive no emprego anterior. Voltando ao embrulho, quando o terminei, entreguei sorrindo para a dona (como combinado na entrevista com a minha supervisora) e a mesma mão que impulsionava o presente para frente sofria de imediato uma pressão para trás. Sim, era a ruiva esquisita e pomposa que quase me esfrega o embrulho na cara. Contive-me a não descer-lhe a mão na fuça só porque o Maurão ( fofoqueiro de uma figa, almejante do setor de logística e responsável pelo setor de lacre de sacolas suspeitas) não me tirou o olho um minuto se quer. Com isto, soltei uma sutil recusa com a seguinte “o que significa isto, senhora?”. Dentro de poucos minutos uma fila surgiu no meu setor e a minha supervisora quis morrer.  Aliás, em algumas horas atrás, o seu rostinho feliz acabara de se encaixar no quadro de funcionários do mês. De imediato, a doida consumidora me solta uma voz de gralha mal comida exaltando a todos “é natal, querida! Este presente dedico a você, mocinha. Não tive tempo de adotar uma criança na listagem da igreja e achei a tua imagem tão carente desta magia natalina...” Bom, juro que por todos os combinados estabelecidos na contratação do meu cargo, via-me retribuindo o presente com embrulho torto e amaciando as minhas bochechas naquele rosto lotado de cosméticos, mas não deu. Derrubei o embrulho, rodeei o meu balcão, pisei levemente no sapato da madame e o tom creme permitiu a marca exata do meu “super-star” ( você pode não acreditar, mas eu tenho uma imitação fajuta desta linha de tênis popular), apoiei a minha mão no teu ombro largo e ossudo e disse “enfia...no seu”. Ela foi tão rápida no escândalo que nem me permitiu concluir a gloriosa frase e logo toda a linhagem de puxa-sacos já estavam  ao nosso redor. Então, fui obrigada a reformular a seguinte “ enfia este presente na sacola (((do teu cu))), não quero danificar (((a merda toda))) o seu ótimo gosto!” . Os urubus satisfeitos retomaram suas atividades. Subi as escadas do desemprego. E como dizia a minha tia Lina, em seus ataques de esquizofrenia, "você é uma porqueirinha que não para em emprego nenhum!"

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