Hoje fui ao meu enterro, não tinha nada demais além de uma manta cor de rosa (quem será que teve esta ideia, esta não é a minha cor favorita), todos me analisando tristemente como o de costume, pois sempre permiti tal análise. Ao lado, um texto me desperta a leitura. Repentinamente desmaio, o que será que aconteceu, realmente não sei, aquele que era meu corpo não fazia parte de mim e toda lembrança que forçosamente tentava resgatar era em vão. Caminhei lentamente até o jardim próximo ao velório, todas as cores eram as mesmas e toda natureza permanecia por si mesma e o meu eu que duvidava ser eu continuou com dúvidas.
Retornei à sala fria e me deparei com lágrimas, o meu corpo foi lacrado em uma caixa não muito agradável. Fiquei desesperada, alguém precisava me tirar de lá. Debrucei-me sobre o meu corpo e perguntei o que aconteceu. O silêncio era a única coisa presente. Estava eu sozinha, pensei.
No final da tarde, finalizaram a cerimônia com rosas brancas e vermelhas, sinceramente não tinha pensado na minha flor favorita...que estranho, fiquei chocada com este pormenor.
Não me importava se estava ali presa dentro de uma caixa de madeira, mas o fato de não saber ao menos minha flor preferida me feriu profundamente e neste instante refleti sobre a minha vida, ou melhor, sobre a minha morte. Será que estava morta o tempo todo?
Logo, um balde de terra veio à tona e pesou qualquer coisa que no fim pensava em ser leve. Agarrei-me no galho do pé de amora que ali estava (no todo sempre), retirei o fruto e mastiguei como se fosse o meu último alimento, mas por ser tão sútil desapareceu rapidamente de minha boca. O sabor da fruta era azedo e gostoso, comecei a sorrir, nem sempre o azedo se torna agradável (quase sempre fui azeda ,isto tenho certeza), caminhei até o portão do cemitério e me deparei com uma avenida movimentada, cheia de gente, todos seguiam um destino contrário, esbarrando uns nos outros, com caras e bocas de diferentes estados com o objetivo de encerrar a tarefa momentânea.
Ignorei o fato de estar enterrada, e caminhei no meio da multidão. Ao atravessar a rua pisei numa poça, molhei minha meia porque estava com aquele All Star (surrado e furado que não tiro do pé), retomo que, pelo fato de estar morta não me irritei, não é muito legal ficar com o pé todo melecado por causa do tênis fudido, mas por fim, ri da situação.
Ah, mas foi muito estranho isto (rir de mim), se fosse antes, pensei. Mas me assustei logo depois, pois se a morte é a inércia perante a tudo e a todos, o que estava eu fazendo neste momento?!
Fiquei agoniada, corri um quarteirão e o vento que batia no meu rosto e escorria pela nuca me aprisionava a algo que eu não sei explicar. A minha mente confusa recordava o escrito ao lado do meu caixão e era mais ou menos assim:
"Por fim estou aqui sem saber se cumpri tudo que me aporrinhava, não sei se meu casamento durou, não sei se consegui comprar a minha casa e um carro, não sei se desfrutei da minha aposentadoria, não sei se fiz bem largar o lazer pelo trabalho, não sei se valeu a pena me preocupar com tudo que falaram de mim, não sei se valeu a pena me calar, não sei se perdi a voz ou se aprendi libras, não sei se me identifiquei com algo interessante e se arrumei uma nova profissão, não sei se tive filhos ou se ganhei mais sobrinhos, não sei com quantos transei, não sei se roubei e quantas vezes menti, não sei qual foi o meu pior arrependimento porque no final das contas não sei se vivi."
escritora profissional!!!
ResponderExcluirUm texto sobre a morte que mostra o quanto vc está viva!
ResponderExcluirAdorei.
"Ignorei o fato de estar enterrada, e caminhei no meio da multidão."