domingo, 25 de março de 2012

O Último Tango


 A noite estava calma e nenhuma situação curiosa. A minha cerveja estava quase quente por conta da monotonia. Uma bela garota senta-se com sua saia rodada azul de bolinhas brancas na mesa à frente. O seu companheiro caminha impaciente até o balcão e pede uma cerveja pra acompanhar a situação. A moça perdida,  olha distante para as ruas, não sei se ela acompanha o movimento dos carros ou se quer identificar pessoas naquele trânsito. Já o rapaz, não consegue encará-la, há uma tensão presente e a minha falta do que fazer naquela sexta-feira me aprisionou àquele casal.  A minha mesa está a quatro passos de distância do rapaz, o meu olhar consegue observar bem a feição da moça. Suas mãos inquietas são levadas ao queixo, depois à mesa, logo se cruzam com os braços finos e novamente se apoiam na altura das bochechas. O rapaz acompanha o seu pão de queijo com água, a menina bebe rapidamente a breja. Sinto uma vontade incontrolável de me aproximar e poder participar daquela conversa como ouvinte, os lábios da garota se movem da lentidão até o exagero, a menina chora e ri em seguida, como se estivesse com a alma dividida na perda e na vitória de teu discurso. O rapaz move a cabeça de um lado para o outro, que pena que não consigo perceber sua manifestação frontal, está de costas para mim. Meu celular toca. Era Karine, desesperada como sempre. Enrolo pra atender, mas a bicha não desiste, aperto o verdinho do teclado com lamentação. As cobranças iniciam-se e eu desesperado por perder a continuidade do caos romântico ao lado. Karine me cobra pequenas coisas, aliás, ela só sabe cobrar (chamo-a carinhosamente de agente bancária particular, ela me suga a alma). Por indiferença, Karine desiste do diálogo (quase um monólogo) com o maridão, e eu fico com um sorriso estreito nos lábios contando os segundos em que minha queridinha irá desligar o telefone ( na minha cara, como sempre). Depois da premonição realizada, peço mais uma para o garçom e retomo o meu alvo. O caos dominou a situação , a garota está furiosa e consigo ouvir a seguinte frase “ exemplifique, exemplifique!! Você argumenta demais, é somente um domínio de sua retórica. Exemplifique o nosso erro, exemplifique!”O rapaz está quase desistindo da conversa. Penso eu, que a beleza da garota o aprisiona, não por ser a única mulher a cobiçar, mas por saber que ela está a sua disposição. O garçom se aproxima da minha mesa, para trazer o pedido, e percebe que  estou fissurado pela briguinha cotidiana de casais e logo faz um adendo “ este aí, vai tomar uma bica das braba!”,eu nem dei trela e o cara voltou com seus afazeres . Num súbito o rapaz espirra uma frase ( Xeque-Mate, se assim o posso nomear) “olha me desculpa, se eu preciso saber do universo feminino , você precisa entender o universo”. A garota levanta, com um andar elegante, o rapaz segue o ritual com um semblante  de arrependimento, e eles desaparecem no fluxo noturno urbano. Eu me sinto um pouco tonto,  lembro-me de karine, de tua voz, de tua nuca, de tuas pernas, da comidinha boa que faz e outras coisas que não iria relatar aqui. Decido ir pra casa e pedir milhares de desculpas (como sempre) e dizer que a amo. Acendo o meu cigarro e vou caminhando sossegado pra my house, baby. Chegando lá, enrolo pra abrir o portão, me perco com o molho de chaves, subo as escadas, abro a porta da sala e sinto a falta de Karine. Corro para o quarto, vou até a lavanderia, que desespero, aonde esta mulher se meteu? Sigo para o banheiro atordoado, abro o armarinho pra pegar o sabonete  e que susto! Karine me deixou uma carta.
        “... Oi , Rafael! Serei breve. Hoje te deixo livre, leve e solto! Ok!
Já me senti só por muitas noites a tua espera. Arrisco por várias vezes dá uma voltinha pelo bairro e encontrar o alfabeto inteiro de possibilidades a meu favor, entretanto, sempre te coloco em 1º plano. Com seus inúmeros contatos, acredito que tenha se divertido ao me trocar por tão pouco, ou, por tão muito nesta noite em que completamos sete anos de união (por instável  que seja!) . Sei que hoje, chegaria a ouvir milhares de desculpas e a palavra te amo querida... Mas posso te dar um toque? Dizer é fácil meu amor...Medíocre é não comparecer!
Beijos de uma mulher que te amou muito e cansou de esperar por pelo menos um dia que  você fosse o seu  príncipe encantado (o que realiza pequenos detalhes de uma boba esposa), aliás, eu sempre soube dos teus defeitos...boa sorte.”
   Depois de ler, minhas pernas bambearam... Karine sempre me ameaçava, dizia que iria passar uns dias na casa da mãe, mas nunca cumpria. Cai na cama e chorei. Ela era a minha única possibilidade. O rei está morto.

Um comentário:

  1. PQP CRISTIANE MORAES.......... VC DETERMINANTEMENTE ARREBENTOU PARA NÃO DIZER PALAVRAS DE BAIXO CALÃO COMO ARREGA........... DEIXA PRA LÁ......... rsrsrsrsrsr.......... NARRATIVA CATIVANTE E QUE ENCANTA SEU LEITOR!!!!!!! QUE SABEDORIA E QUE DOMÍNIO......... PARABÉNS........ VC MAIS UMA VEZ SURPREENDEU-ME......... !!!!!!!!!!!!

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