A noite estava
calma e nenhuma situação curiosa. A minha cerveja estava quase quente por conta
da monotonia. Uma bela garota senta-se com sua saia rodada azul de bolinhas
brancas na mesa à frente. O seu companheiro caminha impaciente até o balcão e
pede uma cerveja pra acompanhar a situação. A moça perdida, olha distante para as ruas, não sei se ela
acompanha o movimento dos carros ou se quer identificar pessoas naquele
trânsito. Já o rapaz, não consegue encará-la, há uma tensão presente e a minha
falta do que fazer naquela sexta-feira me aprisionou àquele casal. A minha mesa está a quatro passos de
distância do rapaz, o meu olhar consegue observar bem a feição da moça. Suas
mãos inquietas são levadas ao queixo, depois à mesa, logo se cruzam com os
braços finos e novamente se apoiam na altura das bochechas. O rapaz acompanha o
seu pão de queijo com água, a menina bebe rapidamente a breja. Sinto uma
vontade incontrolável de me aproximar e poder participar daquela conversa como ouvinte,
os lábios da garota se movem da lentidão até o exagero, a menina chora e ri em
seguida, como se estivesse com a alma dividida na perda e na vitória de teu
discurso. O rapaz move a cabeça de um lado para o outro, que pena que não
consigo perceber sua manifestação frontal, está de costas para mim. Meu celular
toca. Era Karine, desesperada como sempre. Enrolo pra atender, mas a bicha não
desiste, aperto o verdinho do teclado com lamentação. As cobranças iniciam-se e
eu desesperado por perder a continuidade do caos romântico ao lado. Karine me
cobra pequenas coisas, aliás, ela só sabe cobrar (chamo-a carinhosamente de
agente bancária particular, ela me suga a alma). Por indiferença, Karine
desiste do diálogo (quase um monólogo) com o maridão, e eu fico com um sorriso
estreito nos lábios contando os segundos em que minha queridinha irá desligar o
telefone ( na minha cara, como sempre). Depois da premonição realizada, peço mais
uma para o garçom e retomo o meu alvo. O caos dominou a situação , a garota
está furiosa e consigo ouvir a seguinte frase “ exemplifique, exemplifique!!
Você argumenta demais, é somente um domínio de sua retórica. Exemplifique o
nosso erro, exemplifique!”O rapaz está quase desistindo da conversa. Penso eu,
que a beleza da garota o aprisiona, não por ser a única mulher a cobiçar, mas
por saber que ela está a sua disposição. O garçom se aproxima da minha mesa, para
trazer o pedido, e percebe que estou
fissurado pela briguinha cotidiana de casais e logo faz um adendo “ este aí,
vai tomar uma bica das braba!”,eu nem dei trela e o cara voltou com seus
afazeres . Num súbito o rapaz espirra uma frase ( Xeque-Mate, se assim o posso
nomear) “olha me desculpa, se eu preciso saber do universo feminino , você
precisa entender o universo”. A garota levanta, com um andar elegante, o rapaz
segue o ritual com um semblante de
arrependimento, e eles desaparecem no fluxo noturno urbano. Eu me sinto um
pouco tonto, lembro-me de karine, de tua
voz, de tua nuca, de tuas pernas, da comidinha boa que faz e outras coisas que
não iria relatar aqui. Decido ir pra casa e pedir milhares de desculpas (como
sempre) e dizer que a amo. Acendo o meu cigarro e vou caminhando sossegado pra
my house, baby. Chegando lá, enrolo pra abrir o portão, me perco com o molho de
chaves, subo as escadas, abro a porta da sala e sinto a falta de Karine. Corro
para o quarto, vou até a lavanderia, que desespero, aonde esta mulher se meteu?
Sigo para o banheiro atordoado, abro o armarinho pra pegar o sabonete e que susto! Karine me deixou uma carta.
“... Oi , Rafael! Serei breve. Hoje te
deixo livre, leve e solto! Ok!
Já me senti só
por muitas noites a tua espera. Arrisco por várias vezes dá uma voltinha pelo
bairro e encontrar o alfabeto inteiro de possibilidades a meu favor,
entretanto, sempre te coloco em 1º plano. Com seus inúmeros contatos, acredito
que tenha se divertido ao me trocar por tão pouco, ou, por tão muito nesta noite em
que completamos sete anos de união (por instável que seja!) . Sei que hoje, chegaria a ouvir
milhares de desculpas e a palavra te amo querida... Mas posso te dar um toque?
Dizer é fácil meu amor...Medíocre é não comparecer!
Beijos de uma mulher que te amou
muito e cansou de esperar por pelo menos um dia que você fosse o seu príncipe encantado (o que realiza pequenos
detalhes de uma boba esposa), aliás, eu sempre soube dos teus defeitos...boa
sorte.”
Depois de ler, minhas pernas
bambearam... Karine sempre me ameaçava, dizia que iria passar uns dias na casa
da mãe, mas nunca cumpria. Cai na cama e chorei. Ela era a minha única possibilidade.
O rei está morto.
PQP CRISTIANE MORAES.......... VC DETERMINANTEMENTE ARREBENTOU PARA NÃO DIZER PALAVRAS DE BAIXO CALÃO COMO ARREGA........... DEIXA PRA LÁ......... rsrsrsrsrsr.......... NARRATIVA CATIVANTE E QUE ENCANTA SEU LEITOR!!!!!!! QUE SABEDORIA E QUE DOMÍNIO......... PARABÉNS........ VC MAIS UMA VEZ SURPREENDEU-ME......... !!!!!!!!!!!!
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