"Um passo atrás
do outro. E não olha pra trás. Já falei pra não falar por cima de mim... E não me
olhe de soslaio!" Estas pegajosas frases de efeito, de todo santo dia, agarravam
as orelhas e era muito fácil decorar o compasso desnecessário e a tonicidade das
palavras naquele simplório discurso. No fundo, ela queria um coral clamando por juízo e disciplina.
A cabeça doía da
nuca até o meio do redemoinho do cabelo frisado. Era como se houvesse uma
carreata de piolhos em busca de um único foco de sangue no couro cabeludo. E
aquela coceira ardente quebrou toda tranquilidade da mesmice obediência. De imediato
ouvi os passos que atropelavam a poeira da tarde fria e acelerava a rotação do
ar, pronto, chegou o furacão. Levei uns tabefes na cabeça que mandou toda aquela
pediculose pros ares. O alívio foi tão enlouquecedor, que a abracei com força,
dizendo que a casualidade me rendeu uma sensação libertadora. Um choque.
Aqueles olhos castanhos escuros se debulharam em lágrimas, e a voz firme
autoritária se rompeu em gemidos graves. A minha blusa suada, devido o caminho
que percorreste, serviu de lenço. Logo, ela cai em si, percebe o surto que
escancara quem realmente é. Retira do bolso esquerdo de seu casaco um contracheque,
joga no chão, pisoteia até rasgar. Beija-me a boca, agradece baixinho,
obrigada.
No dia
seguinte, não a vi passear bravamente pelo pátio. Eu sinceramente fiquei
mexido, estranho...O que será que ela fez da vida. Um amigo me contou que juntaram os pedaços de
seu contracheque e descobriram o valor real de seu cargo, ganhava muito bem. A equipe de suporte e demanda recolheram informações pontuais sobre o cargo para formularem um processo de seleção. Cordialmente, lançaram os informes: "temos vagas". A multidão vibra, como se fosse a melhor notícia do ano.
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